Another Again

legendHavia uma década de rancor guardado no peito dele.

Mesmo passado tanto tempo, eu ainda sentia o ódio dele tão forte quanto no dia em que o expulsei de casa. Naquela época fui impulsiva e coloquei tudo a perder por pura vaidade, mas o Universo foi justo e eu pude sentir nos anos seguintes tudo o que causei na vida dele.

Nossos caminhos voltaram a se cruzar em momentos dispersos e aos poucos pudemos reconstruir um convívio civilizado, mas ainda longe de ser amável. Voltamos a nos falar sem medo das farpas e acabamos nos aproximando amigavelmente, trocando umas poucas confidências.

Certa noite entre bebericos de vodka com suco de maçã e papos de duplo sentido, o improvável tomou conta da situação. Eu nunca poderia prever aquele momento, apesar de tantas vezes ter pensado nessa remota hipótese. John Legend sussurrava no estéreo criando um climão para o que viria a seguir. Ele me perguntou o que poderia fazer por mim naquele instante – o que me faria feliz – e eu me limitei a responder com um sorrisinho sacana e uma virada de olho.

Entendendo o recado, ele se aproximou e lá fomos nós de novo, relembrar entre tapas e beijos o bem que um conseguia fazer ao outro. E o som soltava na trilha sonora: “It’s another again…”.

Música: Another Again (John Legend)

Always

bonjoviConheci meu príncipe encantado aos 13 anos, mas ele não veio em seu cavalo branco nem me encontrou em um baile de gala.

Nossos olhares se cruzaram um dia no movimento escoteiro, com uma sucessão de encontros e desencontros do acaso. Por algum infortúnio que não me recordo, faltei à atividade escoteira bem no dia em que o grupo dele visitou o meu. Uma semana depois só se falava do deus grego que havia derretido o coração de todas as garotas do meu grupo. As meninas, ouriçadas, armaram uma visita ao grupo dele e me chamaram para a empreitada. Naquele tempo eu era a escoteira mais nerd que existia e só tinha cabeça para o movimento. Me interessavam distintivos e cordões, não meninos. Eu levava a sério. Mas mesmo ressabiada, fui.

O tal escoteiro-top-top nos esperava na estação de metrô para nos guiar até seu grupo. Quando bati o olho nele pude entender a euforia das minhas amigas. O moleque era um gato, mesmo de uniforme escoteiro e pé engessado. Passei dias ouvindo Bon Jovi no meu quarto e imaginando mil cenas românticas entre nós (risos).

Daí em diante nossos grupos começaram a marcar atividades em conjunto e o gatinho aproveitou o ensejo para rodar a banca. Ele pegou todas as garotas que eu conhecia. Numa bizarra coincidência descobri que estudávamos na mesma escola e que lá a situação era a mesma; aquele galinha ficou com a geral. Eu permanecia a única invicta e já me conformava em ser a feia renegada que ele nunca quis tentar beijar.

Águas rolaram e eu finalmente virei monitora de patrulha, igual ao bofe. Pouco tempo depois de ser nomeada fui inscrita em um acampamento que aconteceria no grupo dele, e lá fui eu sem maiores pretensões. Ele ainda era lindo e eu ainda acreditava que era muita areia para o meu caminhão, por isso nem me empolguei. Mas no sorteio das duplas que fariam vigília, o destino resolveu nos colocar sozinhos pela madrugada afora. E o milagre aconteceu. Ficamos.

Fui embora do acampamento preocupada com a repercussão do fato (caso alguém descobrisse). Ao mesmo tempo, andava nas nuvens por ter largado por algumas horas a fantasia de Gata Borralheira para virar Cinderela. Um mês se passou e nos reencontramos em outro acampamento, desta vez em um lugar cheio de fãs do rapaz. Tentei ficar na minha, mas a provocação já começou ao me colocarem na patrulha dele. 24 horas por dia olhando para aquela escultura. Paixão define.

Ao fim desse acampamento, o guri anotou o telefone de cada uma das pretendentes (inclusive o meu) em sua agendinha eletrônica e disse a todas que ligaria para aquela que ele decidisse pedir em namoro. Fui embora e cheguei só o pó em casa depois da ralação de tantos jogos e atividades, mas recebi um telefonema que me tirou do chão.

Dentre todas aquelas garotas mais experientes, mais encorpadas, mais atiradas, mais tudo… ele me escolheu. E assim começava o meu conto-de-fadas personalizado.

Música: Always (Bon Jovi)