Heavy Cross

gossip

A empresa inteira me achava louca porque eu decidi ir caminhando para o trabalho todos os dias. Ida e volta andando pelas ruas com minha mochila vermelha, passando por subidas, descidas e retas, fazendo meu corpo e minha mente trabalharem enquanto percorria os 8,4 Km diários.

Uma roupa confortável e um par de tênis eram meus parceiros na jornada. Na mochila ia a “roupa de trabalho”. Aprendi a ser minimalista para carregar só o essencial nas costas.

Eu vibrava com a beleza do dia, reparava como os raios de sol atravessavam as copas das árvores pelas ruas onde eu passava. Mas nem sempre eram dias ensolarados. Certa tarde voltei do trabalho em meio a uma chuva torrencial, mas sem me preocupar se a roupa ficaria encharcada, sem pensar se o cabelo ia ficar todo bagunçado, sem ficar brava ou angustiada. Eu preferia contemplar o percurso sob qualquer condição.

O essencial de tudo aquilo era saber que enquanto caminhava sozinha eu tinha um tempo só meu. Durante uma hora ininterrupta eu desbravava todo meu íntimo, as coisas mais profundas que tinha em minha alma, e praticava auto-conhecimento de uma forma que jamais imaginei ser possível.

Era um exercício poderoso, não para minhas pernas, mas para meu interior, meu eu mais íntimo.

Havia descoberto nessa época a voz poderosa da Beth Ditto e ouvia Gossip com o volume no talo para animar meu caminho. Montava o set no MP4 (tempos sem iPhone), colocava meus fones e andava. Andava e refletia. Andava e observava. Andava e decidia. Andava e sentia a energia de ser eu mesma.

Os melhores momentos dos meus dias eram esses. Eu ansiava pelas manhãs e pelas tardes de caminhada pura, visceral e sincera.

Isso era o que eu chamava de “liberdade pessoal e intransferível”.

Música: Heavy Cross (Gossip)

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