Águas de Março

20140521-221433-80073730.jpg Devia ser a milésima vez que minha tia repetia Águas de Março na vitrola. Eu não aguentava mais, então corria pra brincar na rua e fugir daquele repeteco.

Eu até que gostava do repertório que ela escolhia pra cantar no karaokê. Era basicamente MPB e isso contribuiu bastante pra formação do meu gosto musical. Só que naquela semana ela decidiu cantar Elis e essa canção dependia de mais que um vozeirão afinado. Era fundamental ter boa memória para dominar a letra, que jogava com palavras parecidas. Aí minha tia resolveu ensaiar a semana inteira. Colocava a música, cantava junto, errava, e repetia, e errava, e repetia, incansavelmente.

A cena na sala era hilária. Ela tinha uma mania muito louca de ficar balançando como uma autista enquanto escutava música. Sentava no sofá e jogava o corpo pra frente e pra trás, acompanhando o ritmo da bossa. Ela levava esse ensaio maluco muito a sério e esse foco garantia o show no rolê com os amigos.

Lá pelo meio daquela semana, passei pela sala e ao invés de correr pra rua, fiquei. Sentei junto a ela e esperei ela errar a letra para a música começar de novo. Ela cantou até o meio da canção, daí errou de novo. E a meninona aqui, com uns 9 anos na época, resolveu continuar o show.
Cantei a letra inteirinha sem errar uma palavra. Pense numa tia braba, rapaz!

Música: Águas de Março (Elis Regina e Tom Jobim)