Rehab

amySei que vai soar estranho, mas foi a bebida que me fez gostar de correr.

Minha amiga já havia me chamado para algumas provas de corrida e eu até cheguei a me inscrever na Nike 10k, isso no auge do meu sedentarismo. Acabou que eu bebi demais uma noite antes e mandei um SMS de bêbada as duas da matina avisando minha amiga sobre minha desistência.  Ela correu, eu guardei o kit de lembrança e desencanamos do assunto por um tempo.

Isso até aparecer uma corrida bem diferente. A proposta dessa prova era correr 5km pela Vila Nova Conceição em SP, parando a cada kilômetro para hidratar em um bar do bairro. Isso mesmo, a cada bar, uma lata de Skol. Óbvio que nos inscrevemos imediatamente.

No dia da prova chegamos ao bar de concentração para largar meio-dia. Ali, a organização do evento promoveu um “esquenta” regado a tequila frozen e gatorade com vodka. A gente já largou “mai loco que u Bátima” e com uma lata gelada na mão. Na frente do pelotão de umas 500 pessoas, ia um trio elétrico tocando só sonzeira e arremessando energético pros corredores. Nunca em toda minha vida fiquei tão bebada com cinco cervejas, e ao chegar no último bar ainda rolou uma festa de arromba pra fechar. As medalhas eram copinhos de shot da José Cuervo, que guardo carinhosamente até hoje (rs).

A extinta Drink & Run era um estouro. Participamos de 4 delas, na última fantasiadas (eu de Chiquinha e minha amiga de marinheira), amarradonas no rolê insano que era essa corrida. Em todas que participamos, a abertura era sempre esse hino sugestivo da Amy, que puxava a multidão dos manguaceiros rumo ao primeiro boteco. Era magia pura, e só depois de participar disso tudo é que comecei a tomar gosto pelo esporte e fui me inscrever em provas mais sérias.

Continuo fumando, bebendo e comendo gordura pacas, que fique claro. Mas hoje, às vésperas de fazer minha terceira meia-maratona, agradeço do fundo do meu coração pelo incentivo inestimável que só a Drink & Run foi capaz de proporcionar! Salute!

Música: Rehab (Amy Winehouse)

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Check My Machine

paulCrescer na periferia tem lá seus problemas, mas também tem coisa boa que só se vive lá.

Até hoje tem “evento” na rua ali na Vila Clara, mas agora só rola pancadão, credo. Há 20 anos atrás, o som que fazia a cabeça do pessoal de lá era o samba-rock (quanta diferença, chessuz). Todo fim de semana tinha um baile na casa de alguém da vizinhanca, e colava uma galera pra dançar até o sol raiar. Eu era uma crianca e é claro que eu nao ia no rolê, mas de casa ouvia felizona toda a setlist, imaginando que um dia eu iria curtir os mesmos bailes que eles. Inocente que eu era, viu.

Esse estilo de música ficou muito forte em São Paulo na década de 70 e por isso o contato com o samba-rock se estendia em casa, afinal minha minha mãe e minhas tias curtiram muito esse período. Toda festinha de família tinha o momento do show de passinhos e giros, que a geração anterior à minha executava com uma precisão assustadora. Eu ficava encantada, mesmo achando impossível repetir qualquer coisa que eles fizessem. Quem comandava a “pista” nessas ocasiões era a mulherada – as Morais, as Nogueira – porque poucos dos maridos se jogavam pra arriscar uns passos. Lembro que meu pai era uma porta e nunca dancava, só observava.

Fui crescendo e curtindo junto com as matriarcas, mas nas poucas vezes que tentei dançar nao deu certo. Aparentemente eu sofro de algum distúrbio de coordenação necessária especificamente para o samba-rock. Até hoje tem apenas um tio corajoso o suficiente pra me arrancar giros, no mais é sempre vexame. Acho tão lindos os movimentos, mas não consigo executar. O trauma é tanto que já pensei em fazer aulas, mas como boa “ovelha negra da família” aceitei o cargo da única Morais que nao dança isso.

Tem muito som clássico pra bailes de samba-rock, na maior parte brasileiros, claro. Tem Jorge Ben, Bebeto (que era lá da quebrada), até o Clube do Balanço de hoje em dia. Tinha a gringa Rockin’ Robin dos Jackson 5 que era um estouro também. Mas essa aqui do Paul (isso, aquele, dos Beatles) era praticamente obrigatória no baile.

E até hoje ouço isso e já me encho de inveja da coordenação motora alheia, ô tristeza!

Música: Check My Machine (Paul McCartney)