The Way

Como tudo que acontece comigo, minha primeira experiência de trabalho também foi uma tragicomédia.

Eu já tinha minha Carteira de Trabalho desde os 14 anos, mas o 1º emprego só rolou aos 17 com a indicação de uma amiga da escola. Minha cara de pau garantiu o sucesso da entrevista com o dono da empresa, mas não preparou nenhum de nós dois para as minhas presepadas de novata, como essa que vou te contar agora.

Era uma pequena revenda de produtos de informática (sim, a gente ainda usava essa palavra). Meu trabalho era enviar propostas de venda aos clientes, e era aí que começava a treta. Além de não saber diferenciar as peças e de me confundir horrores com a cotação do dólar, meu desafio real tinha um nome curto, porém cruel: FAX. Todos os nossos clientes eram fãs do aparelho telefone-fax, aquele combo maldito. E chegou o grande momento de mandar minha 1ª proposta.

Suando frio e com uma puta vergonha de perguntar pra alguém sobre o funcionamento daquela desgraça, passei meia hora olhando pra geringonça sem a mínima ideia do que fazer. Quando decidi tomar uma atitude, perdi outra meia hora tentando enfiar minha proposta onde era a saída de papel.

Apesar de sermos 3 pessoas em um escritório de 30 metros quadrados, ninguém havia notado minha batalha, isso até meu chefe chegar. O cara riu da minha cara por uma eternidade, pra depois me dar uma aula técnica. Bom, depois da saia justa, finalmente aprendi a usar aquela bagaça, ainda sem saber que outros e maiores desafios me esperavam naquela rotina de trabalho.

Opa, mas qual é a ligação disso tudo com o som do Fastball? Quase nenhuma. Era apenas o hit que bombava nas rádios e ficou agregada a essa memória tosca do meu primeiro emprego.

Música: The Way (Fastball)

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Wicked Game

wickedgEstava tudo bem. A gente vivia nossa vidinha feliz, na parceria de sempre. Naquela terça-feira acordamos, fomos até a feira do bairro comer um pastel, passeamos pelo bairro de mãos dadas e tudo. Voltamos pra casa felizes e eu fui me aprontar para ir trabalhar.

Ele saiu nessa noite pro encontro semanal com os amigos, e eu aproveitei para armar uma surpresa. Nunca tinha feito aquilo, mas quis presentear meu boy magia com um striptease. Me enchi de coragem e ensaiei o espetáculo. Escolhi essa música do Chris Isaak sem nem notar a letra, foi pelo swing melódico mesmo, achei perfeito para sensualizar. Peguei uma de minhas lingeries novas para estrear, coloquei um casaco por cima, pus um salto vermelho e combinei a cor no batom. Me vi pelo espelho e me senti gostosa, um puta milagre.

Abri um vinho, servi duas taças, e ali sentada na sala já comecei a bebericar da minha parte. Esperei pouco, e ele chegou. Assim que entrou, já notou que eu estava diferente e deu um sorriso largo. Joguei ele no sofá sem dizer nada, dei play no som e comecei meu show. Antes que a música terminasse, estávamos entrelaçados entre sofá, cama e chão. Uma delícia de noite.

Quinta-feira da mesma semana: o baque. Cheguei do trabalho e ele já estava em casa. Tudo parecia normal, até ele me dizer que precisávamos conversar. Sentamos juntos no sofá e ele jogou o paralelepípedo na minha cabeça.

– Vou sair de casa amanhã, pra mim não dá mais.

Eu tentava processar a informação, com mil perguntas na mente, sem entender o motivo daquilo já que todos os sinais que o cara me dava era de que tudo estava bem e que era feliz comigo. Consegui balbucear uma pergunta – por que? – e recebi a resposta mais inesperada de todas. Ele disse que não aguentava mais nossa rotina. No fundo, o que ele queria dizer era que não aguentava mais levar a responsa de dividir uma casa, de manter as coisas em ordem, de correr atrás de trabalho pra dividir as despesas. Ele queria viver sozinho num buraco qualquer onde pudesse deixar tudo como queria sem alguém pra encher o saco.

Na mesma conversa ele revelou que já estava há um mes buscando um quartinho pra alugar. Eu só pensava em como estava sendo enganada há tanto tempo, achando que nossa relação só crescia depois de três anos juntos. Pior era lembrar do strip dois dias antes de tudo sucumbir. Que idiota eu fui!

Implorei a noite toda para ele repensar. Ele se manteve firme, e na manhã seguinte foi embora, levando todas as coisas que lhe pertenciam. A casa ficou cheia de buracos, e eu percebi o quanto de espaço deixei de ocupar na minha própria casa para abrir espaço pra ele. Me senti vazia, fracassada. Nem tive coragem de ver a mudança, saí de casa cedo e o deixei trabalhar em paz.

Alguns meses depois, já com minha vida em ordem, ele apareceu na minha porta. Disse ter se arrependido, disse que ainda me amava, e quis tentar outra aproximação. Eu estava sozinha, me deixei levar pelo charme já conhecido e voltei a sair com o cara. Mas o atrevimento dele cresceu e chegou ao ponto de me sinucar: ou a gente voltava a namorar e viver juntos, ou ele não queria mais sair comigo. Assim, na lata. E só me restou devolver a mala de roupas que ele mantinha lá em casa e desejar boa sorte ao rapaz.

Hoje em dia dou risada dessa história, mas confesso que fiquei traumatizada. Acho que nunca mais vou fazer um striptease na minha vida. Sai zica.

Música: Wicked Game (Chris Isaak)