Check My Machine

paulCrescer na periferia tem lá seus problemas, mas também tem coisa boa que só se vive lá.

Até hoje tem “evento” na rua ali na Vila Clara, mas agora só rola pancadão, credo. Há 20 anos atrás, o som que fazia a cabeça do pessoal de lá era o samba-rock (quanta diferença, chessuz). Todo fim de semana tinha um baile na casa de alguém da vizinhanca, e colava uma galera pra dançar até o sol raiar. Eu era uma crianca e é claro que eu nao ia no rolê, mas de casa ouvia felizona toda a setlist, imaginando que um dia eu iria curtir os mesmos bailes que eles. Inocente que eu era, viu.

Esse estilo de música ficou muito forte em São Paulo na década de 70 e por isso o contato com o samba-rock se estendia em casa, afinal minha minha mãe e minhas tias curtiram muito esse período. Toda festinha de família tinha o momento do show de passinhos e giros, que a geração anterior à minha executava com uma precisão assustadora. Eu ficava encantada, mesmo achando impossível repetir qualquer coisa que eles fizessem. Quem comandava a “pista” nessas ocasiões era a mulherada – as Morais, as Nogueira – porque poucos dos maridos se jogavam pra arriscar uns passos. Lembro que meu pai era uma porta e nunca dancava, só observava.

Fui crescendo e curtindo junto com as matriarcas, mas nas poucas vezes que tentei dançar nao deu certo. Aparentemente eu sofro de algum distúrbio de coordenação necessária especificamente para o samba-rock. Até hoje tem apenas um tio corajoso o suficiente pra me arrancar giros, no mais é sempre vexame. Acho tão lindos os movimentos, mas não consigo executar. O trauma é tanto que já pensei em fazer aulas, mas como boa “ovelha negra da família” aceitei o cargo da única Morais que nao dança isso.

Tem muito som clássico pra bailes de samba-rock, na maior parte brasileiros, claro. Tem Jorge Ben, Bebeto (que era lá da quebrada), até o Clube do Balanço de hoje em dia. Tinha a gringa Rockin’ Robin dos Jackson 5 que era um estouro também. Mas essa aqui do Paul (isso, aquele, dos Beatles) era praticamente obrigatória no baile.

E até hoje ouço isso e já me encho de inveja da coordenação motora alheia, ô tristeza!

Música: Check My Machine (Paul McCartney)

Anúncios

Kissing a Fool

georgeSofro de saudade crônica daquilo que não vivi. Sinto falta de momentos de épocas diferentes desta, quando tudo apelaria mais profundamente aos meus sentimentos.

Por um infortúnio qualquer nasci tarde demais para ter chance de vivenciar tudo que me faz feliz. Cheguei atrasada nesse mundo e aprecio as coisas que tocam minha alma através das memórias alheias.

Mas nem por isso deixo de sonhar com o que é sublime para mim. Dentre as vontades bobas que coleciono, há uma especialmente doce. Imagino repetidamente em minha cabeça uma cena quase que tirada de algum filme antigo. Sonho com um baile, daqueles onde as mulheres se fazem presentes com seus pomposos vestidos longos e rodados, onde os homens chegam impecavelmente elegantes.

Uma noite de gala, com música boa (um pré-requisito) e gente interessante que goste de dançar. Drinques, um lindo luar, uma big band tocando sem parar. Aparece aquele homem de cair o queixo me convida para dançar. Sei lá como, mas a banda toca Kissing a Fool. Nessa hora o mundo congela e eu só quero saber de deslizar pelo salão nos braços dele. Nada mais importa. Sendo feliz como se não houvesse amanhã (suspiros).

* Texto postado originalmente no Vodka com Fanta.

Música: Kissing a Fool (George Michael)