Bad

20140414-231032.jpgNem sei ao certo qual era minha idade, mas sei que eu tinha menos de seis anos pois ainda morávamos na casinha de três cômodos da Dona Cida.
Parando para pensar agora, eu era uma criança bem estranha por pedir um disco do Michael Jackson quando devia estar curtindo Xuxa ou Mara Maravilha… mas pensando mais um pouco já não acho tão esquisito vindo de uma menina que aprendeu a ler com três anos de idade. Whatever.
Nessa época meus pais ainda alimentavam (ou tentavam alimentar) toda a história do Bom Velhinho, mas eu não abraçava bem a idéia. Naquele Natal de 1900 e Guaraná Brahma da garrafa marrom, acordei cedinho e fui vasculhar a casa, já que não havia lareira como nos filmes. Achei então meu esperado presente na mesa da cozinha e fui logo despedaçando o embrulho para me assegurar que era o que eu havia pedido.
Com meu barulho, meus pais acordaram. Quando chegou na cozinha e viu a cena, minha mãe soltou a pérola:
– Nossa, que legal! O Papai Noel trouxe o que você queria!
Mesmo com quase zero de entendimento das coisas da vida, saí do meu êxtase, larguei o LP na mesa, franzi a testa e em poucos segundos fiz uma análise. Verifiquei a porta: fechadura minúscula, nenhum vão embaixo (tinha aquele rodinho), trancada a chave. Chequei o vitrô: lacrado, espaço estreito entre os vidros.
Olhei fundo nos olhos da minha mãe e lancei com ar de sabichona:
– Mãe, fala a verdade, foi você que comprou né? Eu sei que foi!
Ela nem precisou responder depois da gargalhada que deu. E eu definitivamente deixei de acreditar no Papai Noel e passei a crer somente na Mamãe Eliana.

P.S.: acho que depois disso ainda passei um ano cantando “andduordsdattchatchutchugetstchutchadibi who’s baaad?”.

Música: Bad (Michael Jackson)

Hunting High And Low

a-haEu era chacoalhada silenciosamente em minha cama naquelas manhãs frias, a fim de não acordarmos meu pai, afinal dormíamos todos no mesmo quarto.

Soltava um grunhido preguiçoso e levantava numa lerdeza típica de quem ainda não acordara. Me arrastava até o chuveiro, onde a água me despertava instantaneamente. Vestia meu uniforme verde-bandeira de modo apressado para conseguir devorar meu pão com manteiga e bebericar meu café com leite antes de partir. Pegava a mochila, que equivalia a metade do meu pequeno corpo, e ia com minha mãe para o portão de casa. Em instantes o Tio Vicente aparecia.

A perua escolar, uma VW Kombi, geralmente estava cheia pois eu era a última passageira que ele buscava antes de rumar para a escola. A perua tinha dois lugares disputadíssimos pela criançada: o banco da frente e o chiqueirinho, lá no fundo do carro. Era esperado que os dois lugares da frente fossem cobiçados, pois ao sentar-se ali a criança tinha o privilégio de ver o caminho todo como o motorista via e ainda ficava perto do rádio (meu paraíso particular). O que eu não entendia era a tara da galera que queria viajar no chiqueiro, que na verdade era o maleiro da perua e não tinha banco nem nada. Não sei se eu era uma das prediletas, mas a moça que ajudava o Tio Vicente sempre reservava meu lugar no banco da frente, e eu viajava até a escola no melhor estilo “like a boss” todos os dias.

O Tio Vicente era um cara baixinho, sorridente e com um bigode inconfundível. Conversava e dava atenção para as baboseiras de criança que a gente falava. Mas comigo a relação era diferente por conta da música. Tenho bem marcada na memória a seleção musical que a gente curtia todas as manhãs na perua. Eram os mesmos sons que meus pais ouviam e eu arriscava cantarolar num enrolation descarado cada música gringa que ele colocava no toca-fitas. Tinha uma fita do A-ha que eu pirava, e ele achando graça colocava e acabava cantando junto. A nossa predileta era Hunting High And Low.

E ríamos. E cantávamos mais alto. E eu ficava triste quando chegava na escola.

Música: Hunting High And Low