Latch

Depois de algumas noites compartilhadas, ele resolveu sumir. Foram dez dias de mensagens minhas ignoradas e de nó na garganta. Mas um amigo em comum (o mesmo que nos apresentou) fazia aniversário e eu precisava encarar o inevitável reencontro na festa.

Arrastei meu corpo até a pizzaria, cheguei antes de todo mundo. A hora passou, algumas das melhores cervejas mexicanas entraram no jogo, e então ele apareceu. Acompanhado de um cara e de uma garota. Suei frio.

Nos cumprimentamos mantendo a pose e ele me apresentou aos amigos que vinham de outra cidade. Misteriosamente, o santo da nova amiga bateu com o meu e ficamos trocando altas ideias, até que ele veio chamar a menina pra seguir o rolê em outro lugar. Ela insistiu que eu fosse junto e eu tomei a má decisão de entrar no carro com eles rumo ao desconhecido.

Já na tal balada e no meio dessa puta saia-justa, vi que nem eu nem ele sabíamos como gerenciar aquela situação. Ele seguiu conversando num canto com o amigo e eu fui dançar com a amiga, que parecia super animada pra desbravar a noite da Cidade do México. Continuei bebendo pra me anestesiar de toda aquela cena surreal em que me meti.

Aí quando começou a tocar justo essa música, ele apareceu na minha frente, dançando de um jeito tão perfeito que me fez gaguejar antes de tentar dançar junto. Lembro bem do rosto dele com as luzes coloridas, do olhar fixo em mim, da mão dele me puxando pra perto…

Lembro também dos três dias que passamos internados no meu quarto depois desse rolê. E das inúmeras tentativas de nos afastarmos durante os quase cinco anos de muitos sentimentos loucos. Até agora eu não entendi o que ele fez pro meu coração bater fora do peito, como diz a canção. Até hoje eu não consigo escutar essa música sem tremer dos pés a cabeça. Até o momento, não sei lidar.

P.S. Feliz aniversário, pessoa.

Música: Latch (Disclosure)

Spending My Time

Recebi a notícia da morte da Marie, vocal do Roxette, ontem. Fiquei chateada, afinal 61 anos me parece pouco pra uma vida. Mas é o que é.

Parei pra lembrar do legado dela com o Roxette, das músicas que marcaram minha vida, e encontrei esse som. ‘Spending My Time’ provavelmente foi a primeira canção com sentido de romance pra mim.

Eu era uma criança de 10 anos vivendo numa vizinhança com garotas mais velhas, que já pensavam em namorar. Eu queria mais era brincar, e com elas rolavam partidas de Taco na rua e disputas no Atari da vizinha. Apesar de sempre me queimarem na cara jogando Queimada e de me detonarem no videogame, eu curtia ter essa turma pra chamar de minha. Só que a pré-adolescência delas gritava e já envolvia garotos.

Aí brotou do nada um menino de 15 anos chamado Luciano, que foi morar com uma tia dele na mesma rua que a gente. Quando a novidade chegou, as meninas surtaram. Todas ficaram apaixonadas pelo boy quase que imediatamente, e começou uma louca disputa pela atenção dele.

Naquela época, não se falava em ficar: ou você namorava sério ou era chamada de galinha, não tinha test drive nem meio termo. O boy espertinho começou a engabelar a mulherada naquela brincadeira Cai No Poço (a.k.a. Salada Mista em outras regiões). Beijou todas fazendo esquema pra ser avisado quando era a que ele queria, menos eu. Daniella, 10 anos, escoteira e competitiva pra caralho, nunca se deixava pegar porque jogo é jogo, parceiro. Mandrake Beijinho era outra brincadeira onde o objetivo era beijar e não ganhar, mas eu era caxias e ninguém me encontrava desprevenida. E foi assim que segui como a BV do rolê sem me ligar do que tava acontecendo ali.

Um dia, o Luciano foi colocado na parede por todas as meninas da rua, que queriam saber com quem ele ia namorar. Eis que o cara lança meu nome na roda e o espanto é geral. Eu tava ali, chocada, mas feliz por ser escolhida pra alguma coisa, mesmo sem ter ideia do tinha que fazer. O moleque de 15 anos me pediu em namoro, e eu com meus 10 anos de pura maturidade disse a ele que ia perguntar pros meus pais se eu podia namorar. E foi isso que eu fiz, perguntei… Através de uma cartinha que coloquei embaixo da porta do quarto, morta de vergonha por tocar nesse assunto em casa pela primeira vez.

No dia seguinte, sem muito rodeio, minha mãe me avisou que eu não podia namorar porque ainda era uma criança e porque o menino era muito mais velho do que eu. Sem questionar, fui na rua, procurei o Luciano e mandei a letra. Ele ficou chateado na hora, mas minutos depois já tava jogando bola com os moleques da rua. E eu voltei pra casa e tentei processar tudo aquilo. Foi aí que eu me apaixonei, e que tive minha primeira desilusão amorosa (se assim podemos chamar meu estado de #chatyada).

Sentada na minha cama, chorei loucamente ouvindo Roxette, como se entendesse alguma coisa sobre paixão. E essa foi a minha iniciação no mundo do faz-de-conta do romantismo. Credo, que delícia.

Música: Spending My Time (Roxette)