Something About You

ZT001CDEstava tudo bem. Eu sabia que minha amiga ia realizar alguns dos seus maiores sonhos e isso me fazia feliz. Eu explodia de alegria pelas conquistas dela e, como sempre, estava ali presente em cada detalhe da preparação dela para a mudança de vida que a esperava. Ela decidiu dar um passo corajoso rumo ao quase desconhecido. Foi meio na correria, no susto. Mas ela ia ficar bem.

Trata-se da minha melhor amiga, então é claro que eu também guardava certo receio por ela ir morar fora do país com um cidadão que eu pouco conhecia. Mas apoiá-la nesse momento importante trouxe certa tranquilidade. Em mais de uma década de convivência pude compreendê-la como poucos, por isso eu sabia que ela ficaria bem.

Nosso círculo de amizades também foi pego de surpresa e ela quis se despedir do Brasil em um de seus redutos paulistanos prediletos. Lá fomos nós, seus comparsas de Sampa, brindar à sua nova jornada um dia antes de sua partida. Enchemos nossa amiga de carinho, lembranças e drinks. Especulamos sobre seus planos futuros e desejamos todo o tipo de felicidade disponível no Universo. Ela, por sua vez, se preparava entre choros e risos para um ciclo inédito até então. Ela sabia que ficaria bem.

A despedida não me afetava como aos outros porque eu iria levá-la ao aeroporto e ainda a reencontraria no mês seguinte. Programei minhas férias para ir ao México visitá-la. Fui embora do bar com um amigo que no caminho me apresentou uma regravação dos anos 80, uma música que eu gosto bastante. No caminho para casa eu ouvia o som enquanto digeria a situação: minha irmã não biológica estava indo morar há mais de 7000 km de distância. Não, eu não tinha como ficar bem.

Ao chegar em casa, desabei. Entrei em desespero, chorei a noite inteira. Fui repassando essa música no som e repassando tudo aquilo que vivemos juntas pela memória. Sozinha em casa com meus botões me dei a chance de ser egoísta, de sofrer a ausência iminente da minha “parceira no crime”. Simplesmente não consegui imaginar a minha vida sem ela por perto. E chorei mais um tanto. Mas eu precisava deixar que ela seguisse seu caminho, mesmo que ele não me incluísse mais.

Então parei de chorar. Agradeci a Deus (ainda agradeço diariamente) pela dádiva que é nossa amizade, que tudo suporta e tudo colore, mesmo através do tempo e do espaço. Obrigada Senhor, por cruzar nossos caminhos e por cuidar dela onde eu já não posso intervir.

P.S.: Obrigada Alê, por me ensinar que a amizade é o amor verdadeiro.

Música: Something About You

Fallin’

aliciaEle sabia que eu era só dele e me fazia de gato e sapato. Não sentia compaixão pelo meu desespero avassalador e abusava do meu amor quando bem queria.

Um dia, já cansada daquela bagunça sentimental, decidi dar um basta na história toda. E o fiz magistralmente.

Marcamos para nos encontrar em uma noite qualquer da semana. Como era de costume, passaríamos a noite em um motel meia-boca que havia virado nosso refúgio meses antes.

Coloquei um lindo vestidinho preto, que deixava minhas costas tatuadas desnudas num belo decote. Subi em minha sandália vermelha, me maquiei, arrumei o cabelo que era longo e borrifei o perfume que ele gostava em pontos estratégicos do corpo. Me vesti de coragem e antes de sair de casa escrevi a letra dessa música da Alicia num papel; a canção descrevia bem o que eu sentia.

Ele me levou até o nosso “pulgueiro” predileto para o que seria a melhor noite de nossa estranha relação. Fui decidida a proporcionar a melhor transa da vida do cara. Cada toque meu era carregado de paixão e mágoa, mas ele era incapaz de perceber essa sutileza em meio ao êxtase. A transa foi cinematográfica, com pernas, mãos e corpos num encaixe perfeito. Depois do auge, ainda tiramos aquela soneca de pernas entrelaçadas para acalmar o coração e preparar o estômago.

No comecinho da manhã seguinte, ele me levou em casa. Antes de sair do carro dei o beijo urgente da despedida. Saquei da bolsa aquele papel com a letra da música e um adeus, deixei no assento do passageiro ainda quente e parti sem olhar para trás ou para a possibilidade de vida a dois que acabara de deixar ali. Quase um crime perfeito, não fosse a memória que guardei na pele.

Música: Fallin‘ (Alicia Keys)