Morena

los_hermanos_quatroMe bateu saudade de casa.

Não é saudade de São Paulo, ou do Brasil.

É uma nostalgia cheia de sons, imagens e cheiros daquela minha casa e daquela minha vida.

Onde eu acordava com o cheirinho do café da vizinha.

Onde passamos um Natal e um Ano Novo em família.

Onde tivemos festa surpresa de aniversário, pra mim e pra amigos queridos.

Onde cada detalhe tinha minha essência estampada.

Onde eu passava as tardes de domingo tomando sol no quintal e bebendo uma gelada.

Onde eu recebia meus amigos pra churrascadas insanas na Enterprise* ou pra jantares com temakis feitos em casa.

Onde eu passava o sábado bebendo champagne de roupão laranja.

Onde eu recebia meus amores pra noites quentes e pra calorosas discussões.

Onde eu cuidava das minhas plantas e do meu fiel amigo com todo carinho.

Onde eu chorava as pitangas assistindo um DVD da Sade e rachava o bico vendo um DVD da Gloria Estefan.

Onde eu fazia como, onde, com quem e o que eu queria.

Onde minhas noites eram de Norah Jones e meus dias eram de Los Hermanos.

Onde eu me sentia em casa.

*Enterprise era a churrasqueira monstra que eu tinha e parecia uma nave espacial.

Música: Morena (Los Hermanos)

Moro Onde Não Mora Ninguém

agepeNem eu entendo como guardo memórias tão remotas. Essa é de 1984 e 1985, e é tudo muito vívido na minha cabeça até hoje.

Morei num lar bem simples nessa época, ali na Vila Clara. O terreno era um barranco com uma casinha lá no alto, tinha uma escada escavada na terra pra subir o morro. Foi nesse mesmo lugar que meu pai cresceu com sua mãe (a vó que não tive a chance de conhecer) e seus muitos irmãos. Todos os seus amigos de infância ainda moravam no bairro.

Nossos vizinhos eram praticamente nossa família. Lembro da Dona Aparecida, uma senhora fortona que usava um lenço cobrindo o cabelo já grisalho, com uma penca de filhos morando ali no mesmo sobrado. Uma de suas filhas, a Marta, tinha a paciência de um monge comigo e apesar de já ser adulta brincava com a pirralha aqui todo dia. Lindas pessoas que guardo no coração.

No fim da nossa rua morava o eterno parceiro do meu pai, o Chulinha. Pense num homem enorme (pra cima e pros lados) e careca. Era mecânico de mão cheia e também vivia num sobrado com a mulher, com os pais e com suas filhas. Era lá no Chula que a turma fazia os churrascos mais divertidos da vila.

O clube do Bolinha do meu pai era tão grande que tinha até time de futebol. Todo domingo rolava a pelada no campinho de terra batida, logo ali na rua de baixo. Eu adorava assistir o jogo e nessa época ainda era comportada o bastante pra passar uma hora e meia sentada no banco, na torcida.

Esse time era basicamente formado pelas tantas crias do Seu Bahia, um nordestino porreta que apesar de ser pai de tanto macho ainda tinha amor pra tratar meu pai como filho e eu como neta. Me mimava cada vez que eu passava pelo portão da sua casa, e eu adorava ficar lá ouvindo suas histórias e escutando a trilha sonora de todo fim de semana. Sempre o mesmo velho e bom disco do Agepê.

Meu pai teve sorte na vida por conhecer este homem, e eu tenho sorte de lembrar disso tudo com muito carinho.

Música: Moro Onde Não Mora Ninguém (Agepê)