Marvin

Vivi pouco com meu avô, mas nos sete anos de convivência que tivemos posso afirmar que foi a relação mais profunda que eu tive na vida.

Era meu avô quem passava o dia comigo na infância, quem brincava comigo, quem me buscava na escola. Ele preparava o almoço que eu quisesse, fosse pão com ovo ou frango assado. Fazia cadeirinha com as pernas para que eu me encaixasse no colo. Me exibia para o bairro inteiro, todo orgulhoso da sua companheirinha.

Quando ainda trabalhava na Vasp, me comprava Dan-Top no Jumbo Eletro todos os dias na volta para casa. Me levava toda semana na lojinha da Cupecê para comprar mais uma boneca Chuquinha, até completar minha coleção. E se minha avó vinha tentar me corrigir com o chinelo, ele impedia e depois comia minha mente até eu entender – apenas com palavras – o que eu tinha aprontado.

Nós brigamos uma única vez e eu não me esqueço disso. Mimada, eu pedia qualquer coisa e ele se prontificava a conseguir. Certa vez, já sentados para almoçar, o fiz levantar e ir até a mercearia da nossa rua para buscar refrigerante. Ele foi e voltou com uma soda. Eu bati o pé que não queria aquilo, queria guaraná, então lá foi ele de novo trocar a garrafa. Voltando com um guaraná Antarctica foi obrigado a assistir outro show meu pois era o guaraná Brahma que eu queria. Esperneei loucamente e ele perdeu a paciência, me arrastando pelos cabelos até o sofá e me colocando de castigo. Emudeci. Nunca havia acontecido isso entre nós. Minutos depois ele me perdoou e tudo voltou ao normal.

O que eu não sabia neste dia era que ele estava com uma dor excruciante por conta da úlcera que o comia por dentro. Eu sequer entenderia com 6 anos de idade o que era uma doença dessa. Nossos olhares se trocaram pela última vez através de uma janela do Hospital Alvorada, ele lá em cima fazendo um “jóia” para a neta lá embaixo, no carro, esperando a volta dele de uma cirurgia de emergência. Essa volta nunca aconteceu.

Com sua morte, entrei em choque. Sequer consegui chorar. No dia de seu enterro, ouvimos pela primeira vez aquela música dos Titãs no rádio, que falava de uma vida sofrida e da perda dos pais. A música se tornou nosso (meu e de minha mãe) elo de memória.

Me pego sempre imaginando como seria a vida se ele estivesse nesse mundo hoje em dia. Quanta coisa ruim teria deixado de acontecer apenas por ele estar presente. Quantas alegrias seriam multiplicadas somente pela existência dele em nossa família. Mas o que imagino com mais profundidade é o quanto eu seria amada e o quanto eu o amaria, um tipo raro de amor, incondicional e livre.

Dos cinco netos, eu fui a única que teve o privilégio de conhecer este homem. Ele foi meu único avô, eu sua única neta. Isso é uma honra que ninguém pode me tirar.

Vô Cido, meu coração bate falho sem ter o seu por perto, mas meu conforto é lembrar que nos veremos de novo e então eu vou finalmente sentir aquele teu abraço de urso mais uma vez… amo-te infinitamente.

* Texto publicado originalmente no Vodka com Fanta.

Música: Marvin (Titãs)

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