Nothing Even Matters

hillA gente já se pegava pelos caminhos casa-trabalho-casa, dentro do fretado, mas havia aquele passo a mais pendente. Eu não era virgem nem nada, mas nunca havia ido a um motel. Quando ele propôs, fiquei curiosa e aterrorizada ao mesmo tempo. Ah, eu bem queria entrar naquele antro há séculos, mas meus casos anteriores deviam ser econômicos – sempre deram um jeito de me arrastar pra casa mesmo.

Nenhum dos dois tinha carro, aí estava o primeiro embate: pedir o carro dos pais emprestado. Inventei alguma coisa em casa e peguei a caranga para trabalhar naquele dia, assim na volta a gente já esticaria para a perdição. O dia de labor se arrastou numa ansiedade que não cabia no peito e quando chegou a hora de encontrar o moço me deparei com uma vergonha a-b-s-u-r-d-a de dirigir ao lado dele. Essas coisas bem bobas e bem de mulherzinha apaixonada mesmo, que acha que tem que ser perfeita em tudo senão o cara some. Contive a tremedeira e dirigi conforme as instruções de percurso que o veterano do rolê passava.

Ao chegar no lugar escolhido por ele, fiquei mais tranquila por ser distante da civilização, mas quase chorei quando vi a rampa monstra que eu teria que subir com o Uninho 1.0. Aquela vergonha de dirigir que quase tinha esmaecido voltou dez vezes pior. Engoli o choro, engatei a primeira e subi. Então chegou a hora de falar com a mulher da portaria/entrada/sei-lá-o-que do tal motel. Eu olhava pro amado com cara de interrogação, sem saber o que dizer ou o que fazer. Ele ria e me orientava, e eu quase com diarréia nervosa. O universo, ainda não contente com toda aquele mico que eu estava pagando, me coloca frente a frente com aquela vaga feita para Smart, minúscula e com a sensação de paredes prensando o carro. Santo Deus. Depois de 364 manobras, consegui estacionar a joça.

O momento clichê de entrar no quarto se pegando não aconteceu. Isso porque a boba aqui entrou analisando o local e fuçando em cada botão de luz, som e hidro que encontrava. Eu era pior que criança na Disney, fiquei atônita com o lugar e esqueci do objetivo da nossa visita ali por uns três minutos. Hilário, ou trágico.

Depois do deslumbre, um vislumbre me trouxe de volta ao momento. Aquele moreno lindo, me olhando, rindo de mim e para mim. Era uma visão digna de uns dois infartos, mas graças ao Papai do Céu eu tinha saúde de ferro e vigor de sobra. Finalmente a noite foi nossa e para nós dois. Luzes coloridas, teto retrátil, hidro no jardim, bebidinhas. Lembro de tudo. E morro de saudade daquele motel e daquele moreno… 😉

Breve Epílogo:

Claro que teve outra surpresa infeliz depois do auge, afinal sou eu a protagonista da história. Na volta pra casa tomei uma multa com o carro da mamãe. Ninguém em casa teve coragem de discutir sobre qual de nós havia passado naquela avenida. E a multa foi paga sem mais comentários.

Música: Nothing Even Matters (Lauryn Hill & D’Angelo)

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Fallin’

aliciaEle sabia que eu era só dele e me fazia de gato e sapato. Não sentia compaixão pelo meu desespero avassalador e abusava do meu amor quando bem queria.

Um dia, já cansada daquela bagunça sentimental, decidi dar um basta na história toda. E o fiz magistralmente.

Marcamos para nos encontrar em uma noite qualquer da semana. Como era de costume, passaríamos a noite em um motel meia-boca que havia virado nosso refúgio meses antes.

Coloquei um lindo vestidinho preto, que deixava minhas costas tatuadas desnudas num belo decote. Subi em minha sandália vermelha, me maquiei, arrumei o cabelo que era longo e borrifei o perfume que ele gostava em pontos estratégicos do corpo. Me vesti de coragem e antes de sair de casa escrevi a letra dessa música da Alicia num papel; a canção descrevia bem o que eu sentia.

Ele me levou até o nosso “pulgueiro” predileto para o que seria a melhor noite de nossa estranha relação. Fui decidida a proporcionar a melhor transa da vida do cara. Cada toque meu era carregado de paixão e mágoa, mas ele era incapaz de perceber essa sutileza em meio ao êxtase. A transa foi cinematográfica, com pernas, mãos e corpos num encaixe perfeito. Depois do auge, ainda tiramos aquela soneca de pernas entrelaçadas para acalmar o coração e preparar o estômago.

No comecinho da manhã seguinte, ele me levou em casa. Antes de sair do carro dei o beijo urgente da despedida. Saquei da bolsa aquele papel com a letra da música e um adeus, deixei no assento do passageiro ainda quente e parti sem olhar para trás ou para a possibilidade de vida a dois que acabara de deixar ali. Quase um crime perfeito, não fosse a memória que guardei na pele.

Música: Fallin‘ (Alicia Keys)