Morena

los_hermanos_quatroMe bateu saudade de casa.

Não é saudade de São Paulo, ou do Brasil.

É uma nostalgia cheia de sons, imagens e cheiros daquela minha casa e daquela minha vida.

Onde eu acordava com o cheirinho do café da vizinha.

Onde passamos um Natal e um Ano Novo em família.

Onde tivemos festa surpresa de aniversário, pra mim e pra amigos queridos.

Onde cada detalhe tinha minha essência estampada.

Onde eu passava as tardes de domingo tomando sol no quintal e bebendo uma gelada.

Onde eu recebia meus amigos pra churrascadas insanas na Enterprise* ou pra jantares com temakis feitos em casa.

Onde eu passava o sábado bebendo champagne de roupão laranja.

Onde eu recebia meus amores pra noites quentes e pra calorosas discussões.

Onde eu cuidava das minhas plantas e do meu fiel amigo com todo carinho.

Onde eu chorava as pitangas assistindo um DVD da Sade e rachava o bico vendo um DVD da Gloria Estefan.

Onde eu fazia como, onde, com quem e o que eu queria.

Onde minhas noites eram de Norah Jones e meus dias eram de Los Hermanos.

Onde eu me sentia em casa.

*Enterprise era a churrasqueira monstra que eu tinha e parecia uma nave espacial.

Música: Morena (Los Hermanos)

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Bad

20140414-231032.jpgNem sei ao certo qual era minha idade, mas sei que eu tinha menos de seis anos pois ainda morávamos na casinha de três cômodos da Dona Cida.
Parando para pensar agora, eu era uma criança bem estranha por pedir um disco do Michael Jackson quando devia estar curtindo Xuxa ou Mara Maravilha… mas pensando mais um pouco já não acho tão esquisito vindo de uma menina que aprendeu a ler com três anos de idade. Whatever.
Nessa época meus pais ainda alimentavam (ou tentavam alimentar) toda a história do Bom Velhinho, mas eu não abraçava bem a idéia. Naquele Natal de 1900 e Guaraná Brahma da garrafa marrom, acordei cedinho e fui vasculhar a casa, já que não havia lareira como nos filmes. Achei então meu esperado presente na mesa da cozinha e fui logo despedaçando o embrulho para me assegurar que era o que eu havia pedido.
Com meu barulho, meus pais acordaram. Quando chegou na cozinha e viu a cena, minha mãe soltou a pérola:
– Nossa, que legal! O Papai Noel trouxe o que você queria!
Mesmo com quase zero de entendimento das coisas da vida, saí do meu êxtase, larguei o LP na mesa, franzi a testa e em poucos segundos fiz uma análise. Verifiquei a porta: fechadura minúscula, nenhum vão embaixo (tinha aquele rodinho), trancada a chave. Chequei o vitrô: lacrado, espaço estreito entre os vidros.
Olhei fundo nos olhos da minha mãe e lancei com ar de sabichona:
– Mãe, fala a verdade, foi você que comprou né? Eu sei que foi!
Ela nem precisou responder depois da gargalhada que deu. E eu definitivamente deixei de acreditar no Papai Noel e passei a crer somente na Mamãe Eliana.

P.S.: acho que depois disso ainda passei um ano cantando “andduordsdattchatchutchugetstchutchadibi who’s baaad?”.

Música: Bad (Michael Jackson)