Que Bom Voltar

edTá certo que o rapaz havia sapateado na minha cabeça num passado nem tão distante, e eu sofrera deveras antes de engatar a atitude “pra-frente-que-se-anda”. Ainda assim o achei corajoso ao insistir em se reaproximar.

Eu curava a dor de um pé-na-bunda e ele não havia se recuperado do pé que ele me deu (e se arrependeu) tempos antes. Eu desacreditada de tudo, abraçava a depressão como quem reencontra uma velha amiga. Ele assumia a responsabilidade do meu resgate, por vontade própria e contra todos.

Deitada em minha cama há mais de uma semana, já estava acostumada com o barulho da porta do apartamento em determinados momentos; era sempre minha mãe vindo cuidar da filha inerte que me tornei. Certo dia o barulho me enganou. No lugar da mãe zelosa veio um príncipe.

Ele se demorou um instante analisando aquela imagem doente da moça que ele amava. Estremeceu mas não retrancou, se manteve ao meu lado e com a voz embargada me pediu permissão para cuidar dos meus cacos. Relutei e vomitei a verdade para afrontar aquela ternura toda. Estou assim por outro alguém e não sei como posso te dar meu gostar agora – falei desencorajando. A resposta dele foi tão sutil e tão absurda que eu não tive mais argumento.

“Tudo bem, eu sei, mas mesmo assim quero cuidar de você, deixa?”

Deixei, claro. E embalada pelo som do Ed Motta vi aquele moço consertar a bagunça do meu coração.

Música: Que Bom Voltar (Ed Motta)

Always

bonjoviConheci meu príncipe encantado aos 13 anos, mas ele não veio em seu cavalo branco nem me encontrou em um baile de gala.

Nossos olhares se cruzaram um dia no movimento escoteiro, com uma sucessão de encontros e desencontros do acaso. Por algum infortúnio que não me recordo, faltei à atividade escoteira bem no dia em que o grupo dele visitou o meu. Uma semana depois só se falava do deus grego que havia derretido o coração de todas as garotas do meu grupo. As meninas, ouriçadas, armaram uma visita ao grupo dele e me chamaram para a empreitada. Naquele tempo eu era a escoteira mais nerd que existia e só tinha cabeça para o movimento. Me interessavam distintivos e cordões, não meninos. Eu levava a sério. Mas mesmo ressabiada, fui.

O tal escoteiro-top-top nos esperava na estação de metrô para nos guiar até seu grupo. Quando bati o olho nele pude entender a euforia das minhas amigas. O moleque era um gato, mesmo de uniforme escoteiro e pé engessado. Passei dias ouvindo Bon Jovi no meu quarto e imaginando mil cenas românticas entre nós (risos).

Daí em diante nossos grupos começaram a marcar atividades em conjunto e o gatinho aproveitou o ensejo para rodar a banca. Ele pegou todas as garotas que eu conhecia. Numa bizarra coincidência descobri que estudávamos na mesma escola e que lá a situação era a mesma; aquele galinha ficou com a geral. Eu permanecia a única invicta e já me conformava em ser a feia renegada que ele nunca quis tentar beijar.

Águas rolaram e eu finalmente virei monitora de patrulha, igual ao bofe. Pouco tempo depois de ser nomeada fui inscrita em um acampamento que aconteceria no grupo dele, e lá fui eu sem maiores pretensões. Ele ainda era lindo e eu ainda acreditava que era muita areia para o meu caminhão, por isso nem me empolguei. Mas no sorteio das duplas que fariam vigília, o destino resolveu nos colocar sozinhos pela madrugada afora. E o milagre aconteceu. Ficamos.

Fui embora do acampamento preocupada com a repercussão do fato (caso alguém descobrisse). Ao mesmo tempo, andava nas nuvens por ter largado por algumas horas a fantasia de Gata Borralheira para virar Cinderela. Um mês se passou e nos reencontramos em outro acampamento, desta vez em um lugar cheio de fãs do rapaz. Tentei ficar na minha, mas a provocação já começou ao me colocarem na patrulha dele. 24 horas por dia olhando para aquela escultura. Paixão define.

Ao fim desse acampamento, o guri anotou o telefone de cada uma das pretendentes (inclusive o meu) em sua agendinha eletrônica e disse a todas que ligaria para aquela que ele decidisse pedir em namoro. Fui embora e cheguei só o pó em casa depois da ralação de tantos jogos e atividades, mas recebi um telefonema que me tirou do chão.

Dentre todas aquelas garotas mais experientes, mais encorpadas, mais atiradas, mais tudo… ele me escolheu. E assim começava o meu conto-de-fadas personalizado.

Música: Always (Bon Jovi)