American Boy

estelleUm deus grego entrou no departamento e a mulherada quase enfartou. Alto, de pele clara mas com aquele leve bronze de quem pega sol esporadicamente, aquele homem era digno de contemplação. Tinha a barba perfeita e os cabelos escuros bem cortados, uns olhos grandes e o sorriso largo. A voz retumbava a cada “muito prazer” que ele dirigia a quem ia conhecendo.

O cara era uma obra-prima da natureza, e iria desfilar pelos corredores da empresa arrancando suspiros das minhas colegas de trabalho – delas, porque eu sempre fui lesada demais pra me empolgar com os gatos que passam por mim, né.

Acabou que o cigarro nos aproximou e eu fui a primeira amizade que ele fez por lá. Engatamos altos papos filosóficos e com o tempo viramos amigos próximos. O bofe era, além de lindo, um lorde.

Aí chegamos naquele estágio de trocar confidências, aqueles conhecidos papos sobre relacionamentos amorosos e tal. Enquanto eu contava minhas mazelas, ele ficava indignado e dizia que eu merecia algo melhor. Por sua vez, me contava suas próprias dores do coração, mas sempre sem nomes – apenas fatos.

Numa tarde qualquer fomos até o fumódromo e ele quis que eu escutasse um som que ele pirava. Lembro dele me dizendo naquele dia “ai para, você já sabia, vai”, enquanto a gente entortava de tanto rir da cara das meninas que paqueravam ele na caruda. Isso porque ele acabava de me revelar que era gay e que elas não tinham a mínima chance. Pobres sonhadoras!

Começava aí nossa linda amizade, coroada com a trilha da Estelle, que ele me apresentou e eu nunca mais parei de escutar (thanks dear!).

Música: American Boy (Estelle)

So Nice

bebelHouve um tempo em que eu atendi o cliente mais legal do mundo.

Eu já tinha trabalhado em outras agências de publicidade, mas nenhuma era como a DPZ. Se eu chegasse mal-humorada, bastava entrar no departamento de informática que ficava alegre instantaneamente.

Foi lá que conheci um dos meus mentores na área de TI, um cara que se tornou um grande amigo. Aprendi muito com ele, que teve a paciência dos monges para me ensinar (rs).

A nossa equipe era bem caricata. Havia a perua-gente-finíssima, o meu mentor-maluco-amigo e dois chefes bem distintos: o bravo-pra-caramba e o mestre-na-arte-do-bem-viver. Toda essa fauna convivia (quase sempre) em harmonia.

O ambiente de trabalho era uma farra só. Palhaçada o dia inteiro na sala, duas horas de almoço (quase sempre gastas no Friday’s), festas de fim de ano insanas e algumas comemorações no meio do expediente a cada novo contrato da agência. Lembro de certa vez ter sido convocada ao meio-dia para ir ao 8° andar, num lounge montado com móveis brancos para bebericarmos champagne e mordiscarmos cerejas frescas. Tudo isso por conta de um contrato fechado com uma grande operadora de telefonia. Vida chata viu.

Para variar, eu tinha minha rotina diária para ir ao trabalho. Pegava um ônibus desde o ABC até o Itaim, descia bem antes do ponto correto e ia andando pela Nove de Julho só para passar numa barraca de frutas e bebidas. Ali comprava uma garrafa de chá preto com pêssego, que levava para a galera no trabalho. Todos os dias, religiosamente. E fazia tudo isso curtindo um CD da novela “Laços de Família” (que possuo até hoje, por sinal) no meu querido discman branco da Aiwa.

Esse foi meu melhor emprego, talvez tenha sido também a melhor fase da minha vida até agora. E essa era a minha música predileta daquele CD.

Obs: Renatão, valeu por tudo hein!

Letra: So Nice (Bebel Gilberto)